Gradualmente… Ele acorda, não entende sua existência, nem sabe que há algo em si ou fora de si, apenas sente, pura e simplesmente. Se constitui quase que de uma forma mágica, diferenciando o que é de dentro e o que é de fora, o que é tocável e intocável, tentando  responder o irrespondível, animando o concreto, dando vida ao que é morto. Desta forma, quase que miraculosamente, cresce! Com o crescimento, atenua-se a vitalidade e forma-se algo novo,talvez nem tão mágico e miraculoso, a rotina , o dever. A fase das descobertas enfim acaba. Chega a hora de servir ao mercado de segunda a sexta ,tomar a cerveja cretina aos sábados enquanto conversa sobre como o tempo anda passando depressa. Perdendo-se em televisões, internets, e informações dispensáveis . Sensibilizando-se apenas com o jornal das 8 e entretendo-se apenas com o futebol das 9.    

Gradualmente…

Ele acorda, não entende sua existência, nem sabe que há algo em si ou fora de si, apenas sente, pura e simplesmente. Se constitui quase que de uma forma mágica, diferenciando o que é de dentro e o que é de fora, o que é tocável e intocável, tentando  responder o irrespondível, animando o concreto, dando vida ao que é morto. Desta forma, quase que miraculosamente, cresce! Com o crescimento, atenua-se a vitalidade e forma-se algo novo,talvez nem tão mágico e miraculoso, a rotina , o dever. A fase das descobertas enfim acaba. Chega a hora de servir ao mercado de segunda a sexta ,tomar a cerveja cretina aos sábados enquanto conversa sobre como o tempo anda passando depressa. Perdendo-se em televisões, internets, e informações dispensáveis . Sensibilizando-se apenas com o jornal das 8 e entretendo-se apenas com o futebol das 9.    

Não tenha nada nas mãos… Não tenhas nada nas mãos  Nem uma memória na alma,  Que quando te puserem  Nas mãos o óbolo último,  Ao abrirem-te as mãos  Nada te cairá.  Que trono te querem dar  Que atroposto não tire?  Que louros que não fanem  Nos arbítrios de Minos?  Que horas que te não tornem  Da estatura da sombra  Que serás quando fores  Na noite e ao fim da estrada.  Colhe as flores mas larga-as,  Das mãos mal as olhaste.  Senta-te ao sol. Abdica  E sê rei de ti próprio.                                                                Ricardo Reis 

Não tenha nada nas mãos…

Não tenhas nada nas mãos 
Nem uma memória na alma, 
Que quando te puserem 
Nas mãos o óbolo último, 
Ao abrirem-te as mãos 
Nada te cairá. 
Que trono te querem dar 
Que atroposto não tire? 
Que louros que não fanem 
Nos arbítrios de Minos? 
Que horas que te não tornem 
Da estatura da sombra 
Que serás quando fores 
Na noite e ao fim da estrada. 
Colhe as flores mas larga-as, 

Das mãos mal as olhaste. 
Senta-te ao sol. Abdica 
E sê rei de ti próprio. 

                                                              Ricardo Reis 

“A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.” F. Pessoa  

A vida que se vive é um desentendimento fluido, uma média alegre entre a grandeza que não há e a felicidade que não pode haver.”

F. Pessoa  

Pichando torto
Desenho Traça a reta e a curva, a quebrada e a sinuosa Tudo é preciso. De tudo viverás. Cuida com exatidão da perpendicular e das paralelas perfeitas. Com apurado rigor. Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo, traçarás perspectivas, projetarás estruturas. Número, ritmo, distância, dimensão. Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória. Construirás os labirintos impermanentes que sucessivamente habitarás. Todos os dias estarás refazendo o teu desenho. Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida. E nem para o teu sepulcro terás a medida certa. Somos sempre um pouco menos do que pensávamos. Raramente, um pouco mais. Cecília Meireles

Desenho

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.

Cecília Meireles

Lembrança Lembro-me dos  sorrisos, do cheiro de feijão, da letria, do choro Lembro-me dos mimos, do amor incondicional, da cara fechada Lembro-me das boas intenções e das atitudes não tão boas  Lembro-me das risadas, dos eternos reclames ranzinzas  Lembro-me das palavras sábias e do carinho endurecido  Lembro-me da dupla mãe que fostes e de quando me dizia: ” Você é o meu maior orgulho “ Lembro e por lembrar, lembro da saudade que te torna imensamente viva, imensamente ausente.

Lembrança

Lembro-me dos  sorrisos, do cheiro de feijão, da letria, do choro

Lembro-me dos mimos, do amor incondicional, da cara fechada

Lembro-me das boas intenções e das atitudes não tão boas 

Lembro-me das risadas, dos eternos reclames ranzinzas 

Lembro-me das palavras sábias e do carinho endurecido 

Lembro-me da dupla mãe que fostes e de quando me dizia: ” Você é o meu maior orgulho “

Lembro e por lembrar, lembro da saudade que te torna imensamente viva, imensamente ausente.

“Porém, a verdadeira e a mais profunda discórdia está na alma de cada um. O futuro se tornou a região do horror, e o presente se converteu num deserto. As sociedades liberais giram incansavelmente: não avançam, se repetem. Se mudam, não se transfiguram. O hedonismo do Ocidente é a outra face do seu desespero; o seu ceticismo não é uma sabedoria, mas sim uma renúncia; o seu niilismo desemboca no suicídio e em formas degradadas de credibilidade, como os fanatismos políticos e as quimeras da magia. O lugar vazio deixado pelo cristianismo nas almas modernas não foi ocupado pela filosofia, mas pelas superstições mais grosseiras. Nosso erotismo é uma técnica, não uma arte ou uma paixão.” Octavio Paz

Porém, a verdadeira e a mais profunda discórdia está na alma de cada um. O futuro se tornou a região do horror, e o presente se converteu num deserto. As sociedades liberais giram incansavelmente: não avançam, se repetem. Se mudam, não se transfiguram. O hedonismo do Ocidente é a outra face do seu desespero; o seu ceticismo não é uma sabedoria, mas sim uma renúncia; o seu niilismo desemboca no suicídio e em formas degradadas de credibilidade, como os fanatismos políticos e as quimeras da magia. O lugar vazio deixado pelo cristianismo nas almas modernas não foi ocupado pela filosofia, mas pelas superstições mais grosseiras. Nosso erotismo é uma técnica, não uma arte ou uma paixão.”

Octavio Paz

A depender de mim - Zeca Baleiro A depender de mim Os psicanalistas estão fritos Eu mesmo é que resolvo os meus conflitos Com aspirina amor ou com cachaça Os gritos todos virarão fumaça A dor é coisa que dói e que passa Curar feridas só o tempo há de Toda regra para o bem da humanidade É certo necessita de uma exceção A depender de mim Os publicitários viram bolhas Eu sei como fazer minhas escolhas E assumir os erros que lá vem Se a alma finca pé os medos somem Menino nunca deixe que te domem Mau pai dizia o verdadeiro homem Sabe o que quer ainda que não queira Besteira é não seguir o coração A depender de mim Os padres e pastores serão tristes Eu penso mesmo que deus não existe E ainda assim quem sabe eu creia em deus Se deus é o outro nome da verdade Deste momento até a eternidade Eu levo entre mentiras e trapaças Besta felicidade frágil farsa do que preciso riso preces e paixão

A depender de mim - Zeca Baleiro

A depender de mim

Os psicanalistas estão fritos
Eu mesmo é que resolvo os meus conflitos
Com aspirina amor ou com cachaça
Os gritos todos virarão fumaça
A dor é coisa que dói e que passa
Curar feridas só o tempo há de
Toda regra para o bem da humanidade
É certo necessita de uma exceção

A depender de mim
Os publicitários viram bolhas
Eu sei como fazer minhas escolhas
E assumir os erros que lá vem
Se a alma finca pé os medos somem
Menino nunca deixe que te domem
Mau pai dizia o verdadeiro homem
Sabe o que quer ainda que não queira
Besteira é não seguir o coração

A depender de mim
Os padres e pastores serão tristes
Eu penso mesmo que deus não existe
E ainda assim quem sabe eu creia em deus
Se deus é o outro nome da verdade
Deste momento até a eternidade
Eu levo entre mentiras e trapaças
Besta felicidade frágil farsa
do que preciso riso preces e paixão

Somente com o coração podemos ver com clareza .O essencial é invisível para os olhos
Bendita falta de fé Como sempre minha ausência de fé me leva a escrever .. Cada vez menos o supremo faz parte dos meus pensamentos , ainda creio em algumas coisas malucas, sem muito sentido mas com muito significado. Queria ser menos metafisica e assimilar algumas coisas que resolveriam praticamente todos os meus conflitos filosóficos, coisas do tipo: ” A vida não é uma pergunta a ser respondida , mas um mistério a ser vivido” - como diria Siddharta , mas eu desisto .. é impossível. Resta-me esperar até quando vou continuar nessa busca incessante pela fé, só espero encontra-la algum dia Eu, eu mesmo… Eu, cheio de todos os cansaços Quantos o mundo pode dar. — Eu… Afinal tudo, porque tudo é eu, E até as estrelas, ao que parece, Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças… Que crianças não sei… Eu… Imperfeito? Incógnito? Divino? Não sei… Eu… Tive um passado? Sem dúvida… Tenho um presente? Sem dúvida… Terei um futuro? Sem dúvida… A vida que pare de aqui a pouco… Mas eu, eu… Eu sou eu, Eu fico eu, Eu…  Alvaro de Campos  

Bendita falta de fé

Como sempre minha ausência de fé me leva a escrever .. Cada vez menos o supremo faz parte dos meus pensamentos , ainda creio em algumas coisas malucas, sem muito sentido mas com muito significado. Queria ser menos metafisica e assimilar algumas coisas que resolveriam praticamente todos os meus conflitos filosóficos, coisas do tipo: ” A vida não é uma pergunta a ser respondida , mas um mistério a ser vivido” - como diria Siddharta , mas eu desisto .. é impossível. Resta-me esperar até quando vou continuar nessa busca incessante pela fé, só espero encontra-la algum dia

Eu, eu mesmo…
Eu, cheio de todos os cansaços
Quantos o mundo pode dar. —
Eu…
Afinal tudo, porque tudo é eu,
E até as estrelas, ao que parece,
Me saíram da algibeira para deslumbrar crianças…
Que crianças não sei…
Eu…
Imperfeito? Incógnito? Divino?
Não sei…
Eu…
Tive um passado? Sem dúvida…
Tenho um presente? Sem dúvida…
Terei um futuro? Sem dúvida…
A vida que pare de aqui a pouco…
Mas eu, eu…
Eu sou eu,
Eu fico eu,

Eu…

 Alvaro de Campos